Viagem ao Vale do Ribeira

A colaboradora Helena Kussik viajou ao Vale do Ribeira para realizar a capacitação do grupo Banarte, que acabou de entrar para a Rede Artesol. Na volta trouxe na mala uma história inspiradora sobre a relação das artesãs com o meio onde vivem, maior área preservada de Mata Atlântica do nosso país.

 

Fotos: Renata Mendes, Elisa Carneiro e Mariana Chamas

Quando preparava a viagem a Miracatu, sabia que o caminho seria breve e um tanto conhecido. A pouco mais de 100 km de São Paulo, onde resido, a pequena cidade de vinte mil habitantes localiza-se no coração da região conhecida como Vale do Ribeira, maior área contínua preservada de Mata Atlântica do nosso país. Do Vale, eu já conhecia as cerâmicas de Apiaí como as feitas pelos grupos Artelooze, Arte nas Mãos e Itaoca, mas ainda me eram misteriosas as tramas feitas a partir da fibra da tão abundante planta: a bananeira. 

A bananicultura no sul do estado é responsável pela quase totalidade do abastecimento de São Paulo, mais de 90%, e é a principal fonte de renda da região. É neste contexto que há mais de vinte anos surgiu a Associação Banarte, a qual tive o prazer de visitar e realizar a capacitação da Rede Artesol. 

Foto: Elisa Carneiro

Um pouco antes da viagem, entrei em contato com Léia, atual presidente, que me indicou uma pousada no centro da cidade. De lá poderia chegar caminhando até o grande galpão que abriga a Banarte, suas artesãs e toda sua história. E assim o fiz.  Pela manhã caminhei pelas ladeiras de Miracatu até encontrar no alto de uma delas o espaço que já conhecia por fotos. Estavam todas lá, Marlene Motta, Eva Santos, Léia Alves, Marinalva Lima, Domingas Sousa, Marlene Mathias, animadas, trabalhando enquanto me aguardavam. 

O que fica claro em uma visita à Banarte (que aliás recomendo muitíssimo!) é a grandeza do tesouro que as mulheres artesãs e toda a população de Miracatu possuem em suas mãos. Aproveitam uma matéria-prima renovável e que seria descarte, uma vez que uma bananeira dá somente um cacho em vida, tendo que ser podada rente ao solo para voltar a brotar. Assim, dos extensos bananais se colhem além dos doces frutos, também a parte que seria descartada no plantio; o pseudocaule, que é assim chamado por serem as folhas enroladas que crescem dando estrutura, desvela-se em cinco camadas de diferentes texturas. 

Foto: Theo Grahl

O conhecimento é ancestral, muitas comunidades tradicionais já experimentaram com a matéria-prima disponível, porém a Banarte alcançou primor em seu processo, conferindo brilho e maciez à fibra. Além das belíssimas combinações de cores inusitadas, que já são parte da identidade do trabalho realizado pelo grupo.

Para além do meu trabalho com elas ter fluido muito bem, saí de lá com um desejo imenso de contar um pouco do que ouvi e presenciei. Difícil imaginar que um grupo com produção e gestão exemplares quase teve seu fim há pouquíssimo tempo. Mas, sim, a Banarte quase encerrou suas atividades há dois anos, após um longo processo de precarização da gestão e consequente perda de clientes.

Ao perceber os rumos que as coisas iam tomando, Léia, que já era integrante do grupo há muitos anos, decidiu tomar frente e assumir a presidência. Várias medidas foram tomadas. As artesãs entraram em contato com a prefeitura, com o órgão de turismo municipal e com antigos clientes, buscando retomar e firmar os laços tão necessários. 

Foto: Theo Grahl

Além das seis presentes, a Banarte conta com mais onze associadas, a maioria produz em suas casas, fazendo colheita e beneficiamento da fibra e cuidando dos acabamentos finais, uma vez que a etapa da tecelagem é restrita à sede. As tarefas administrativas são partilhadas entre todas, realizam reuniões regulares e revezam-se na gestão do espaço que conjuga uma loja onde expõem os produtos. 

Justamente devido a essa organização e integração das artesãs, além de uma forte liderança, é que a associação não só sobreviveu, como revitalizou toda sua estrutura. Um aprendizado muito rico que temos com essas mulheres fortes é a relação que elas passaram a ter com o turismo local. Hoje recebem grupos de todo o país, que, além de visitar o cenário paradisíaco banhado por incríveis cachoeiras, também conhece um pouco da cultura e da identidade local. 

Foto: Paula Dib

Elas profissionalizaram-se para receber os turistas, aprendendo que antes do produto o que importa é o processo. Assim, antes de apresentarem as coloridas almofadas, passadeiras, bolsas, espelhos e bandejas aos visitantes, apresentam o trabalho completo, desde a extração da fibra à finalização do produto. 

Isso, segundo Léia, muda a percepção do público, criando consciência do tempo e da complexidade da produção. O consumo, como consequência disso, é muito mais engajado e potente.

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