Como criam?

Como criam?


Foto: Valdemir Cunha

A produção artesanal envolve processos complexos, com diferentes fases, desde a  obtenção da matéria-prima, seu tratamento, confecção de objetos, até sua comercialização, quando é o caso. Essa produção pode ser individual ou coletiva, seja em grupos unidos pela tradição familiar ou formalizados com foco comercial.

Modos de produção no artesanato tradicional

Existem diferentes experiências de organização produtiva, quando se trata de artesanato tradicional, principalmente porque os formatos variam de acordo com o tipo de comunidade, o próprio processo produtivo do artesanato, as condições geográficas, ambientais, sociais e econômicas, entre outros fatores.

De modo geral, a organização familiar está presente em muitas experiências produtivas do artesanato. Nesse caso, os filhos, e por vezes primos, são direcionados e orientados por uma figura de referência, que pode ser a mãe, o pai, ou avô e avó. Outra forma bastante comum de organização é o grupo de artesãos reúne pessoas que trabalham com a mesma técnica, ou que lidam com diferentes técnicas e matérias-primas.

A partir da década de 2000, principalmente, quando a Artesol, o SEBRAE e os governos estaduais começaram um trabalho sistemático de capacitação e fomento à comercialização, núcleos familiares e grupos de artesãos se organizaram e formaram associações e cooperativas. Esse processo de institucionalização tem sido uma solução encontrada pelos grupos que buscam se estabelecer no comércio e precisam encontrar meios que facilitem os processos burocráticos de venda. Há também os coletivos de produção que reúnem diferentes grupos de artesãos que, juntos, compõem toda uma cadeia produtiva. Esse é o caso da Central Veredas composta por oito diferentes associações de artesãos que se dividem nas atividades da fiação, tingimento e tecelagem das peças produzidas.

Riscos no modo de produção

A disponibilidade de matéria-prima é uma questão que tem se tornado cada vez mais importante no universo da produção do artesanato tradicional, uma vez que o acesso à mesma tem sido colocado em risco por fatores ambientais, geracionais, étnicos, territoriais, econômicos, entre outros. A seca das veredas, caminhos de água presentes no cerrado, cuja presença é condição para existência do buriti, por exemplo, é uma questão ambiental que coloca em risco o artesanato feito com as fibras da palmeira e com sua madeira. O contexto de forte degradação das veredas é uma questão ambiental que, por sua vez, possui um fundo econômico, pois esse processo é um dos resultados do avanço do agronegócio que impacta profundamente as regiões de cerrado com o desmatamento e com o uso abusivo das fontes hídricas.

A produção das cuias de Santarém, hoje reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial do estado do Pará, também se encontrava em risco, uma vez que a forte desvalorização da cultura indígena e suas heranças colocava os preços das cuias muito abaixo de um valor justo. Além disso, a falta de percepção da importância e riqueza singular dos traços desenhados pelas mulheres ribeirinhas produtoras das cuias estava criando outras dinâmicas econômicas de compra das cuias lisas, sem desenho, que eram usadas na cidade de Santarém para imprimir figuras do universo da indústria cultural, ou mesmo paisagens turísticas da região.

Outro exemplo é o risco que se corre, com o desrespeito às demarcações de terras quilombolas e indígenas, causando   na prática a desestruturação dessas comunidades cujas vidas e culturas são profundamente vinculadas ao território que habitam e, consequentemente, do artesanato que produzem. Esses são apenas alguns exemplos entre outros inúmeros que poderiam ser citados e que dizem respeito a desafios de diferentes ordens, mas que carregam as tensões das relações entre os interesses capitalistas e neoliberais e dos valores e modos de vida comunitários e étnicos.