Maria Joana Rodrigues Trindade

Localização Rua Ceará, 472, Bairro Pau d’Olho, - Turmalina/MG - CEP 39660-000
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Telefone (38) 99178-7802
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AS MÃOS QUE CRIAM, CRIAM O QUE?

Tradicionais bordados coloridos em ponto-cruz - uma forma popular de bordado em fios
contados na qual os pontos se cruzam em formato de “X”. Acredita-se que seja a mais antiga
forma de bordado que se tem conhecimento e pode ser encontrado em todo o mundo, mas
especialmente na Europa e Ásia, onde existem muitos registros antigos encontrados.

Em Turmalina, norte de Minas Gerais, esse fazer vem sendo transmitido de mãe pra filha há
gerações. Não se tem lembrança, ao certo, de quando a tradição começou. As mulheres mais
pobres plantavam o algodão para se vestirem, faziam suas próprias roupas e as roupas de casa
- de cama, mesa e banho. A variação entre o tecido que se vestia e o que se usava na casa era
apenas a espessura: o primeiro mais fino e o de uso doméstico mais grosso. Dona Joana
Trindade se lembra bem: "Eu já vesti e eu não gostava não, porque era pesado e quente.”

O ponto cruz é executado em um tecido de fios tramados. No século 16, o bordado era feito
com fios de seda ou de lã sobre linho já que a linha de algodão que conhecemos hoje
praticamente não existia e muito menos essa variedade de cores. Atualmente o fio de algodão
é a linha de bordar mais comum - um fio de algodão mercerizado, composto por seis fios
levemente torcidos, facilmente separáveis.

Em Turmalina ainda se preserva a tradição de tecer, de produzir o próprio tecido, no tear
manual, porém não mais com o algodão plantado como antigamente. “Ninguém mais planta.
Não existe mais tecido feito com algodão plantado. Algodão legitimo fiado mesmo. A gente
compra o barbante, tece no tear e depois borda.” Existe toda uma cadeia produtiva formada
por tecedeiras de Turmalina e Berilo que fornecem o tecido produzido manualmente e pelas
bordadeiras, que executam os desenhos nas peças com a técnica do ponto de cruz, onde a
artesã deposita os pontos sobre o padrão impresso no tecido.

Sem o algodão fiado nos quintais, as tecelãs hoje adquirem o barbante em Ituiutaba (MG). Em
teares manuais rústicos, tecem os fios e constróem os tecidos. Ao receber o tecido já pronto, a
bordadeira corta no tamanho desejado, dá o acabamento na medida que precisa e "põe” pra
bordar. Joana já bordou muito. Conta hoje com a ajuda de outras artesãs para executar seu
trabalho. Se dedica mais a marcar, escolher as cores e cuidar do acabamento."O artesão, é um
quebrando o galho do outro.” Há alguns anos Joana perdeu parte da visão do olho direito, fez
uma cirurgia e não pode mais bordar. “Mas nunca largo o bordado. Às vezes acabo bordando
um pouquinho."

A marcação do bordado refere-se a contagem de todas as linhas do tecido para uma definição
precisa de sua posição, o que garante uniformidade, simetria e harmonia dos desenhos na
peça. “Marcar não é riscar o pano, é contar a linha do pano e dividir onde você quer o trabalho,
quantos fios que tem a colcha do pé até a cabeceira. Se fizer errado, você tem que desmanchar
tudo e desmanchar é muito ruim, dá dó, tem um sentimento em cima daquilo. As vezes tem dia
que a gente não tá com a cabeça muito boa pra colocar as coisas no lugar certo, é melhor nem
mexer."

QUEM CRIA?

Maria Joana Rodrigues Trindade recebeu o ofício como uma herança de família, no tempo em
que os fazeres tradicionais eram transmitidos de geração em geração. "Isso está no sangue.
Sou de uma família de artesãos. Cresci aprendendo a fazer." A mãe era fiandeira - plantava,
colhia e fiava o algodão e fazia roupas para todos vestirem. "Ela tirava o caroço, fiava e fazia
roupa. A gente ajudava a descaroçar o algodão." Isso há mais de 60 anos, época em que não
se produzia para venda, mas para uso pessoal. Com o tempo as artesãs passaram a
comercializar suas criações, como forma de sustento.

Joana tinha entre seis a sete anos quando aprendeu a tecer e dos oito aos nove começou a
bordar. O início foi difícil: tentava bordar flores mas as figuras mais se pareciam com coelhos e
ratos. Trocava as peças por roupa, matéria prima, comida, arroz e feijão. Com o tempo
aprimorou o bordado, aprendeu a tirar os desenhos dos livros e assim criou a família. Casou-se
com 17 anos, teve duas filha: xxxxx e xxxxxx, hoje com 33 e 33anos.

Em 1982 participaram da primeira Feira Nacional, e estiveram presentes depois em quase
todas as edições. Com a maioria dos maridos contrários, e ouvindo ofensas na cidade, Joana
era quem “saía”. Montavam um grupo e dividiam as despesas entre todas para que a artesã
fosse representá-las. O mesmo aconteceu depois com a Feira da UFMG da qual participam há
vinte anos, a Feira do Vale do Jequitinhonha e tantas outras. “Com medo de sair pro mundo
mas eu fui. A gente tinha muita precisão de sair pra vender. Nas primeiras vezes eu não sabia
sair pra vender então eu trocava meu trabalho com quem sabia sair pra vender. Trocava por
alimento, arroz, feijão, material, linha. Quando eu aprendi a sair, mesmo com muito medo de
sair, eu aprendi a sair. De lá pra cá moça, as coisas melhorou demais”.

Lá se vão cinco décadas. De oficio e de ensinamento. A frente da Associação que ajudou a
fundar com Cida, dona Valdete e Dona Duquinha (as últimas já falecidas) Dona Joana deu
oficinas em muitos lugares, incluindo o Palácio das Artes, em Belo Horizonte, maior centro de
produção, formação e difusão cultural de Minas Gerais e um dos maiores da América Latina.
Mas como toda grande mestra, passa seu conhecimento mesmo é na porta de casa, onde
recebe todo tipo de gente pedindo ajuda com o bordado: “Ajuda eu combinar as cores aqui? E
eu digo: sim, eu ajudo. Marca aqui pra mim? E eu marco. As vezes eu pego uma agulha e dou
uns pontos para ajudar. Uma especie de um ensinamento, com o tempo elas vão praticando. E
aprendendo.”

ONDE CRIA?

Turmalina é um municipío mineiro localizado no Vale do Jequitinhonha, região conhecida pelos
baixos indicadores sociais. Banhado pelo rio Jequitinhonha com exuberante beleza natural e
riqueza cultural, vivem do cultivo de eucalipto e da lavoura de subsistência. Sofrem com poucas
oportunidades de trabalho e êxodo de trabalhadores. Um lugar onde a cultura encontra forças
nas inúmeras expressões populares que compõem seu patrimônio material e imaterial,
incluindo o artesanato em algodão, que expressa o cotidiano e a vida das mulheres do Vale.
Terra de mulheres fortes. Que lidam com orgulho com os desafios da vida na seca.

“O nosso trabalho tem a cara de Turmalina. O nosso trabalho quando é visto já é sabido que é
nosso, que é de Turmalina. Eu aprendi que parece que a fortaleza das mulheres do vale é
expressada no bordado e no trabalho delas. Certa vez, uma senhora me disse: Oh Joana vocês é
forte demais, muito guerreira, forte demais porque sair de turmalina, de onibus, carregando
esse monte de volume, vocês tem que ser corajosa demais." A isso, responde: “Eu não faço as
coisas pensando que não vai dar certo não, eu penso que vai dar certo e acaba dando certo.”

“Oh moça, se a gente pudesse falar, tem muita coisa importante pra gente falar que acontece
nessa nossa vida de artesão. A gente não dá conta nem de falar. Nós artesãos passamos por
muita dificuldade, e muitos desistem. Uma pena, porque tudo o que a gente quer na vida a
gente tem que correr atras, nunca desistir. Para outros artesãos que estão começando é muito
importante ouvir isso: é difícil mas vale a pena, as conquistas é maior do que as dificuldades.
Não se deve desistir, porque vale a pena.”