Mãos ao barro: as gerações de ceramistas de Capela

Por: Artur Lins, sociólogo pela UnB, mestrando em sociologia na Unicamp. Atualmente, dedica-se a um projeto de pesquisa sobre o mundo da arte popular e do artesanato brasileiro, com foco no litoral e sertão de Alagoas. 19/12/2019
Artur André Lins

Uma das referências clássicas da artista Sil das Alagoas é a jaqueira. Em muitas das peças, aparecem uma mulher lendo sob a árvore. Foto: Marco 500

A tradição da cerâmica ou oleira feita no Brasil nos surpreende com uma diversidade de técnicas, modelos, temas e origens. Barro, argila ou terracota são alguns termos que nomeiam a matéria-prima base. Associado ao trabalho feminino, o saber-fazer cerâmico de procedência popular mantém relação com as louças de barro, utilitários como panelas, moringas, potes, porrões, pratos, travessas, copos e outros suportes, consumidos em seu próprio meio de origem ou comercializados pelos mercados locais. Ao longo do tempo, estes objetos cerâmicos ganharam novas feições, contando outras histórias, memórias e desejos, se tornaram mais sofisticados e passaram a ser vistos também como esculturas, obras de arte colecionáveis.

Exemplo contemporâneo dessa tradição cerâmica que transforma o barro em arte é a alagoana Sil da Capela. Reconhecida nacionalmente pelas suas esculturas, ela faz uso recorrente de um ícone em suas obras: a presença do livro é marcante. Quem segura o livro são as mulheres, ladeadas por crianças curiosas com a possível história ali contada. Este elemento específico das obras aponta para um traço biográfico: envolvida com o corte da cana desde a infância, Sil não se alfabetizou no período convencional. Hoje, no entanto, arrisca a ler e escrever pequenas frases, além de inserir a sua assinatura nas peças. A aplicação do livro em mãos maternas evoca um desejo profundo da artista, que encontrou na linguagem escultórica do barro a sua poética, o veículo de sua narrativa literária. Sil é considerada um destaque do ateliê do mestre João das Alagoas, este último o responsável pelo surgimento de uma nova escola de cerâmica em Capela/AL.

 

João das Alagoas, o mestre de Capela

João das Alagoas em seu ateliê com a representação do bumba meu boi, a marca do seu trabalho. Foto: Artur Lins

Nascido em 1958, João Carlos da Silva, conhecido pela alcunha de João das Alagoas, vive onde se criou no município de Capela, localizado na Zona da Mata alagoana, distando aproximadamente 60 quilômetros da capital Maceió. João conta que desde a infância modelava boizinhos e cavalos, brinquedos que produzia para si. Desde cedo admirava as imagens e desenhava, copiando figuras de livros didáticos e peças publicitárias. Ele lembra, inclusive, que tinha uma coleção de livros de arte europeia em casa, citando Van Gogh, Rafael e Giotto. Ouviu falar pela primeira vez o nome de Vitalino através do rádio, em uma tarde de sábado na década de 1970 no antigo canal do Projeto Mobral. Teve notícia do Alto do Moura e os seus ceramistas também pela televisão, em um programa da Rede Globo.

Em sua sala de trabalho – ao fundo, um pequeno rádio toca forró pé de serra – João mostra um exemplar da Revista Graciliano, dizendo que dali retirava novas referências, apontando para uma figura folclórica, assemelhada a um pássaro, chamado Zabelê. Atualmente, com ajuda dos filhos, realiza pesquisas de imagens na internet. Cita Almeida Júnior e, principalmente, José Antônio da Silva, como influências. No entanto, para João das Alagoas, a sua linhagem artística deve-se a dois principais nomes: Antônio Poteiro e Mestre Vitalino.

“Eu me considero um artista autodidata, primitivo. Eu trato a realidade à minha maneira. Não vou me considerar nunca um artista acadêmico, porque nunca fui à Academia. Também não sou inocente e leigo, sei das proporções, dos estudos que os artistas de Academia fazem, entendo um pouco de perspectiva, não muito, mas não a uso. Uso a minha liberdade para fazer os meus trabalhos, tanto no desenho, na pintura e principalmente do que vivo, que é a escultura de barro”, diz o artista.


Peças dos artistas SIl das Alagoas, João das Alagoas e Adriana Siqueira. Fotos: Ricardo Pimental e Marco 500

João das Alagoas não domina apenas a escultura feita no barro, também conhece a madeira e sabe entalhá-la com precisão, bem como sente-se familiarizado com os pincéis e as telas, os quais diz ter abandonado por motivos financeiros. Antes de viver somente da arte, trabalhava em um supermercado local até que em 1987 passou a  dedicar-se inteiramente à atividade criativa, vendendo suas obras em feiras e lojas de artesanato nos pontos turísticos de Maceió. Considera-se autodidata, curioso e ávido por referências externas. Mas é em seu próprio meio de origem, na vida cotidiana de sua pequena cidade, nos costumes do campo e nos ícones do rico folclore alagoano que diz encontrar o principal alimento de sua criação:

“Minha família tem origem; meu pai tinha origem negra e ele era alfaiate. E o meu avô, pai do meu pai, ele trabalhava aqui, em Capela mesmo, com a carroça, dessas que ainda hoje existem, que fazem frete. Por parte da minha mãe, tive uma tia que fazia panela. Eu a conheci idosa, nunca a vi fazer, mas os meus familiares dizem que ela produzia panela utilitária, o pote, essas coisas”, relata João.

Produção da artista Nena. Foto: Michel Rios

João comenta que deu início às esculturas observando a queima de uma senhora que fazia panelas de barro. Começou com uma série de miniaturas que representavam personagens sertanejas, presépios, ceia larga e santos, principalmente o São Francisco. Beirando os anos 2000, o artista inventa aquele que se tornou o seu principal tema: o motivo do Bumba-Meu-Boi. João observa que os bois de Vitalino são realistas, possuem quatro patas semelhante ao animal. Viu Manoel Eudócio produzir um boi folclórico, simples e miúdo, com singelos detalhes na saia. Lembra-se de um jarro grego que olhou nos livros, ornamentado com cenas, paisagens e figuras que rodeiam a proporção do objeto. Produziu uma síntese: com o barro, João propôs um motivo de Bumba-Meu-Boi ornamentado, com figuras levemente policromadas e em relevo, retratando a vida no campo. A ilustração do corpo dos seus objetos, mesmo preservando a série que lhe dá identidade, reserva a cada peça o seu aspecto único.

Menino jogando pião e menina saltando corda, trio forrozeiro, brincadeiras típicas de festas juninas como rouba bandeira, quebra pote e pau de sebo, além de figuras inspiradas nos folguedos regionais: o guerreiro, o pastoril e a cavalhada, sobre os quais o artista lembra-se festejar quando jovem, ao final do ano, na praça de sua cidade. Aplicou o mesmo princípio criativo em outros temas, usando o motivo do folguedo cênico cavalo-marinho. Atualmente, além das figuras em alto relevo no corpo do boi, vemos o uso de bonecos tridimensionais que o envolvem. Inventivo, João não se acomoda pela estabilidade da consagração conquistada. Aos 61 anos, o artista está constantemente pensando em recriar.    

Novas gerações: Leonilson, Nena e João Carlos Jr.


Miniaturas em barro. Foto: Michel Rios


Há aproximadamente 20 anos, João das Alagoas passou a reunir discípulos, pessoas da sua vizinhança ou participantes de projetos patrocinados pelo SEBRAE, quando ainda oferecia oficinas de modelagem. Hoje, o seu ateliê agrega em torno de 14 artesãos. Um dos mais destacados discípulos, Leonilson Arcandio Holanda conheceu o seu mestre quando tinha apenas 8 anos de idade. Nascido no município de Capela, em 1991, este jovem artista cresceu com as mãos no barro, dando-lhe formas miniaturais.  Espelhando-se em seu professor, aos 13 anos de idade passou a vender algumas peças a partir de motivos regionais e figuras de santo.

Atualmente, com 28 anos de idade, em fase madura de seu processo criativo, Leonilson se destaca por seus temas mais recorrentes: São Francisco, família de retirantes, presépios tradicionais e nordestinos, mandacarus com figuras suspensas, oratórios e outras referências religiosas e locais. Dentro de suas criações, Leonilson encontra diversas possibilidades de representação. As suas figuras mostram ondulações nas vestes, corpos longilíneos e traços finos, mesmo em miniatura, conferindo movimento aos personagens, os quais variam as posições ao sabor da criatividade do escultor.

Cadeira moldada pelo artista João Carlos Jr na Exposição Amostrada durante a DesignWeekend em São Paulo-SP. Foto: Artur Lins

Já Maria Eroneide Laurentino, conhecida como Nena, nasceu na zona rural de Capela, em 1973. Cunhada do mestre João, desde 2003 passou a modelar o barro, hoje a sua principal fonte de renda. Lembra-se da sua avó que era paneleira. Nena conta que a sua marca é o chamado “boi vazado”, preenchido internamente por figuras tridimensionais que remetem ao cotidiano. As suas peças são volumosas e os seus temas variados: comício de político, cinema de rua, rendeiras e uma torre cônica, com elevação em espiral, rodeada por brincadeiras infantis.

Peça do artista Leonilson Acandio. Foto: Marco 500

Outro destaque desse grupo de ceramistas é João Carlos Jr., filho de João das Alagoas, que aprendeu desde criança observando o ofício de seu pai. João Carlos, hoje com 30 anos de idade, demonstra muita versatilidade em suas criações. Além da sua produção, dedica-se também ao oferecimento de oficinas de modelagem em Maceió. Habilidoso e técnico, João Carlos desenvolve uma variedade de figuras e temas. Recentemente, à convite de uma exposição que ganhou espaço na Design Weekend em São Paulo, este jovem artista, desafiado pelos curadores, produziu uma inusitada cadeira de barro estilizada, mostrando que as inovações ocorrem e surpreendem.

As três irmãs: Sil, Tita e Adriana

Sil das Alagoas. Foto: Itawi Albuquerque

Maria Luciene da Silva Siqueira, apelidada como “Sil” desde a infância, nasceu no ano de 1979, em Cajueiro-AL. Quando criança Siklmuda-se com a sua família para trabalhar em uma fazenda de cultivo de cana-de-açúcar, na zona rural de Capela, lugar em que permaneceu até os 17 anos de idade. Após alguns anos, por ocasião de um projeto do SEBRAE destinado à geração de renda para mulheres com filhos portadores de necessidades especiais, Sil encontra-se com João das Alagoas, em 2000. Hoje, reconhecida como Sil da Capela, é vista enquanto uma grande revelação da cerâmica popular brasileira.

“No início, o João me ensinou a fazer uns cavalinhos com uns homens em cima, que eu chamava de cambiteiros, meu pai era cambiteiro. Era difícil porque as pessoas diziam para eu ir cuidar dos meus filhos, que [a arte] não daria futuro. [...] A gente só se sente diminuído quando a gente se diminui, já fiz muito isso quando achava que vim ao mundo apenas para ter filhos e ser uma dona de casa. Mas a partir do momento que conheci o meu trabalho, a minha vida mudou”, diz Sil.

AArtista Tita. Foto: Artur Lins

Sil da Capela possui um repertório temático amplo. Nota-se a inspiração em uma árvore típica de sua região: a jaqueira. Com o passar do tempo, as jaqueiras ganharam, em suas sombras, figuras tridimensionais as mais diversas, que representam cenas cotidianas, as quais narram os elementos familiares ao universo simbólico da artista. Outros temas também se apresentam: o Jaraguá, a Sereia, o Casamento Matuto, o São Francisco e outras imagens de santos, figuras individuais de mães amamentando, casais namorando, crianças brincando, sanfoneiros e violeiros, pescadores e benzedeiras, entre outros motivos que a imaginação fértil possibilita. As feições das figuras detalham um rosto mais robusto e arredondado, permitindo que a artista imprima nas cenas expressões faciais carregadas de emoções e sentidos. A peça mais marcante dessa artista é uma torre piramidal, lembrando um chapéu de guerreiro, que atinge até mais de 1 metro de altura. Em cada nível de elevação, a torre reproduz a complexidade de um vilarejo com cenas da vida cotidiana que se põem a frente de casas interioranas.

A artista Adriana Siqueira. Foto:Artur Lins

 A profissão de Sil da Capela provocou muitos impactos em sua família. Duas de suas irmãs, Maria Cícera da Silva Siqueira – que assina como Tita – e Adriana Maria da Silva Siqueira, foram incentivas pela irmã mais velha a pôr as mãos no barro. Há 12 anos Tita começou a produzir vasos e figuras de promessa – ex-votos –, por uma demanda local. Posteriormente, Tita encontrou a sua identidade criando noivas posicionadas sobre um corpo esférico adornado por flores que preenchem a proporção do objeto. Adriana, por sua vez, há 8 anos dedica-se a modelar o barro, principalmente criando pequenas e grandes jacas, detalhando o fruto minunciosamente. As três irmãs, ao lado de Leonilson, dividem uma pequena sala no ateliê, lugar em que diariamente a prosa corre solta durante a jornada de trabalho.

O trabalho coletivo dessa escola de ceramistas se tornou amplamente reconhecido, ganhando espaço em exposições por várias metrópoles brasileiras e estrangeiras, constando em catálogos, jornais e livros de conteúdo especializado. As peças desses artistas circulam o país e o mundo. Incentivados pela marcante presença de João das Alagoas, os novos artistas buscam, cada um à sua maneira, desenvolver identidades autorais próprias, evitando repetições, sendo o estilo coletivo a fonte de aprendizado para o florescimento dos estilos individuais.

 

Sobre o autor

Artur André Lins