Bordando o Feminino e a construção de um tecido afetivo

Durante seis meses, a artista visual Laís Domingues deixou sua casa em Recife para fazer de Passira, no agreste Pernambucano, sua morada. Lá participou de um processo de imersão e troca de saberes com as bordadeiras do município. O resultado é a criação de uma coleção e uma exposição com retratos das artesãs bordados.

 Exposição Para si: um processo de ser” na Galeria de Artes do Sesc Casa Amarela em Recife com fotografias bordadas

Eu sempre associo o bordar à vida em si, cada ponto é um passo e assim vai se construindo um caminho, uma forma, que só se pode enxergar realmente após um longo tempo.  Lento.  Porque a ansiedade e a pressa em saber o final só atrapalha o processo. Na pressa, a linha quebra, aparecem nós difíceis de serem desfeitos e a linha precisa ser cortada e o processo ser recomeçado.  Na pressa e na ansiedade, perde-se de ver com olhos carinhosos o ponto dado naquele exato momento e ele é tão importante como todos os outros que passaram e virão.  

O projeto “Bordando o Feminino” nasceu em 2016 quando o bordado manual entrou na minha vida e me ajudou a passar por momentos de extrema ansiedade. Comecei a pesquisar sobre grupos tradicionais que utilizavam a técnica e encontrei a Associação de Mulheres Artesãs de Passira (AMAP). Imediatamente conheci Dona Lúcia Firmino, que é a grande líder da associação, abrindo as portas e coração para que o projeto fosse desenvolvido. 
 

No ano de 2017, o projeto saiu do plano das ideias com incentivo do FUNCULTURA, edital da Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco, que viabilizou um intercâmbio de saberes que duraria aproximadamente quatro meses. Hoje noto que o laço criado não se desfaz com o encerramento burocrático de um edital. O "Bordando o Feminino" me ensinou que desejos se realizam, que tudo funciona melhor quando se tem uma equipe que acredita e que está envolvida emocionalmente com o projeto em si.   Eu, (Laís Domingues) e Thanina Godinho, amiga amada de muitos anos, alugamos uma casinha com vista para as montanhas, em frente a AMAP e nela vivemos por seis meses. Com o convívio diário, nossa casa se tornou uma extensão da associação, poia diaramente realizávamos oficinas de modelagem, tingimento natural, bordado tradicional e outros processos criativos. Passávamos tardes inteiras conversando sobre a vida, produzindo, passeando entre as montanhas e fazendo fotos como forma de identificar sentimentos e lugares afetivos em Passira, terra do “acordar suave”, como diz seu nome de derivação indígena.  

Bordar o feminino. O meu, o delas, o nosso. Contar do meu processo com elas e comigo mesma é extremamente difícil porque envolveu um momento super intenso da minha existência. Vi um projeto que havia idealizado há quase quatro anos atrás se concretizar, com todo potencial, com pessoas que escolhi por afeto, por acreditar que iam abraçar essa ideia com amor. 

Se qualquer pessoa me perguntar o que de mais potente tem nesse projeto eu digo de imediato: histórias de vida. É preciso ter muita empatia com o outro para construir algo em coletivo. É um eterno respirar fundo, muitas vezes pensar que não era aquilo que se tinha imaginado/planejado, mas aceitar que é aquilo que está sendo possível tecer. 

 Me reavaliei inúmeras vezes por inteira e é doloroso sentir que às vezes não tenho controle nem sob minhas emoções, quem dirá sob um projeto tão gigante como se tornou o “Bordando o Feminino”. Quando digo controle, falo de prazos, orçamentos, idas e vindas, experimentos, cansaço físico e mental, porque tiveram as eleições no meio de tudo isso. E não foi fácil aceitar o atual presidente. Ainda não é. A primeira ligação que recebi quando saiu a contagem de votos foi de Dona Lúcia e Marielia, mãe e filha, mulheres que  - sem dúvida alguma - vou carregar dentro de mim durante a vida. Foram as primeiras porque sabiam que eu não estaria bem, e eu caí no choro quando ouvi a voz delas, caí no choro porque sabia que seria difícil dar continuidade a projetos como os nossos. Caí no choro e Dona Lúcia não entendia porque eu estava chorando e disse: “agora temos que aceitar e continuar fazendo nossa parte, lutando pelas coisas que a gente acredita”. Foi difícil entender o que ela estava falando no momento, mas agora acho que entendo. 
 
O bordado livre tem um pouco disso, aceitar que os pontos nem sempre são perfeitos, mas a gente pode aceitar e continuar o projeto até chegar na forma final.  Foram dias de inquietação e ansiedade profunda, mas entendíamos que o que estávamos fazendo era resistência junto a tantas mulheres fortes.  Mulheres que já resistem há muito tempo, desde que nasceram. E que independente do machismo institucional e doméstico, bordam e constroem suas independências através das linhas e tramas do tecido da vida. 
 
Tínhamos dois objetivos, criar uma coleção feita por e para a AMAP, onde todo o custo de materiais e feitura seria responsabilidade do projeto e todo o lucro das vendas seria da associação. 
 
 

 
 E eu, tinha uma exposição de fotografias bordadas para criar, utilizando os ensinamentos que Dona Luzinete Maria(outra grande mestra do bordado) me passou durante o tempo de vivência em Passira. As imagens fizeram parte da nossa convivência, muitas vezes saíamos para passear com roupas bordadas por elas e eu registrava elas vestindo a própria criação. Era um processo de fortalecimento de autoestima dentro e fora do trabalho. Todas as fotografias foram reveladas artesanalmente em tons de azul e marrom sob o sol do agreste e litoral pernambucano, em tecido de algodão e linho. Foi um processo desafiador, pois o a revelação artesanal envolve resultados inusitados, muitos experimentos, surpresas boas e algumas frustrações. 

Desde o início sabíamos que a coleção e a exposição seriam lançadas juntas. Queríamos invisibilizar as linhas que dividem arte, moda e artesanato e acredito que conseguimos.

Com o apoio do SESC Pernambuco abrimos a exposição “Para si: um processo de ser” na Galeria de Artes do Sesc Casa Amarela, com cerca de 20 fotografias bordadas, 2 instalações, sendo uma interativa e o lançamento oficial da coleção “Filhas do Sol”. No dia, uma van com todas as artesãs que participaram do projeto fez viagem de Passira a Recife e entre falas emocionadas e algumas lágrimas vimos e apresentamos tudo que criamos juntas durante um ano. 
 
Não sabíamos onde o projeto iria desaguar e para nossa surpresa a exposição foi levada logo em seguida para o sertão do Pajeú e pousou em Triunfo, conhecida como o oásis do SERTÃO, também com apoio do Sesc. Em seguida fomos convidadas (eu e Dona Lúcia), pela artista e pesquisadora Mariana Guimarães, para participar de  uma mesa de conversa no projeto de muita sensibilidade e delicadeza chamado “Bordados Poéticos”, no Sesc Paraty. Lá compartilhamos nossa experiência e os resultados do projeto Bordando o Feminino em parceria com a AMAP. 
 
Agora pretendemos viajar pelo Brasil levando conversas, oficinas com mestras de Passira, exposição, coleção e tudo que cocriamos. Sabemos que temos muitas mãos, braços, cabeças que criam, apoiam e fazem acontecer e agora nos resta continuar ponto a ponto, bordando e construindo um caminho que nos levará a um lugar todavia incerto. 
 

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